A ausência de Felipe Mojave na WSOP 2026 encerra um dos capítulos mais consistentes do poker brasileiro nas últimas duas décadas. O veterano, considerado por muitos um dos pioneiros do poker no Brasil, confirmou nas redes sociais que não estará em Las Vegas neste verão para disputar a World Series of Poker, encerrando uma sequência pessoal de 18 anos seguidos participando do evento.
O Anúncio de Felipe Mojave
Mojave optou por comunicar a decisão diretamente aos seus seguidores, sem entrevistas ou comunicados formais. Ele não detalhou o motivo exato de ficar de fora este ano, dizendo apenas que outras prioridades ocupam seu foco no momento.
A mensagem publicada foi direta e pessoal: “Família e valores sempre em primeiro lugar. Desejo tudo de bom a todos. Paz e amor.” São palavras que fecham a porta para especulações sobre os motivos, mantendo os detalhes da decisão em sua esfera privada, exatamente como ele escolheu apresentá-la.
Fim de uma Sequência de 18 Anos na WSOP
O que torna 2026 diferente é justamente a sequência que se encerra. Mojave esteve presente em todas as edições da WSOP desde 2008, um período de 18 anos consecutivos sem faltar ao maior torneio de poker do mundo. Poucos jogadores em qualquer lugar do planeta, e muito menos vindos do Brasil, podem afirmar algo parecido.
Manter uma presença ininterrupta por quase duas décadas diz tanto sobre disciplina e paixão pelo jogo quanto qualquer resultado isolado em uma mesa final. Nesses 18 anos, a WSOP passou por diversas transformações, do boom do poker ao crescimento do poker online, da chegada do formato Big Blind Ante à expansão do calendário para dezenas de eventos com bracelete a cada verão em Las Vegas. Mojave acompanhou essencialmente toda essa evolução de perto, ano após ano, tornando-se uma referência constante para o público brasileiro que seguia a competição à distância.
Três Vices na WSOP, Sem Bracelete Ainda
Apesar dessa trajetória impressionante de presença, uma conquista ainda escapa de Mojave: ele nunca venceu um bracelete da WSOP, o troféu individual mais cobiçado do poker mundial. Não foi por falta de chances. Ao longo da carreira, ele chegou perto diversas vezes, protagonizando campanhas que terminaram de forma dolorosa bem na reta final.
Ele foi vice-campeão no Evento #12, o $1,000 NLH Double Stack, na WSOP Online de 2021, faturando $476.612. Dois anos depois, foi vice novamente, também no Evento #12, desta vez o $5,000 NLH Freezeout da WSOP de Las Vegas em 2023, com premiação de $401.460. Mais recentemente, em dezembro de 2025, repetiu o feito de terminar em segundo lugar no Evento #12, o $10,000 8-Game, durante a WSOP Paradise, disputada nas Bahamas.
Três vices em formatos diferentes, em momentos distintos da carreira, contam uma história por si só. Chegar ao heads-up de um evento com bracelete já exige superar campos de centenas ou milhares de jogadores. Fazer isso três vezes sem nunca fechar a conta é prova de um nível de consistência raro, mesmo com o bracelete continuando fora de alcance. Quem quiser entender melhor como funcionam esses eventos com bracelete pode conferir o guia da WSOP da Poker Pro Academy.
Do Mercado Financeiro ao Pioneirismo do Poker Brasileiro
Antes de se dedicar integralmente ao poker, Felipe Mojave trabalhou em um banco internacional, uma trajetória que contrasta com o estereótipo comum sobre jogadores profissionais. Essa mudança, de um ambiente corporativo estruturado para o universo imprevisível dos torneios de poker, se assemelha à jornada de outros pioneiros brasileiros que ajudaram a legitimar o jogo no país em uma época em que ainda era visto com desconfiança por boa parte do público.
Ao longo da carreira, Mojave acumulou $4.652.766 em premiações ao vivo, cifra que o coloca entre os dez jogadores brasileiros de poker mais bem-sucedidos de todos os tempos nesse quesito. Somado ao seu longo histórico especificamente na WSOP, esse currículo o transformou em um dos rostos brasileiros mais reconhecidos do poker no cenário internacional, alguém que jogadores mais novos frequentemente citam ao explicar como a cena brasileira de poker deixou de ser um nicho para se tornar uma comunidade competitiva séria e respeitada.
O Que a Ausência de Mojave Representa para o Poker Brasileiro
O Brasil se tornou, na última década, uma das maiores delegações internacionais na WSOP, com dezenas de jogadores brasileiros viajando todo verão para Las Vegas disputando os inúmeros eventos com bracelete do calendário. A presença constante de Mojave, ano após ano, ajudou a normalizar essa viagem para toda uma geração de jogadores que vieram depois dele. Sua ausência em 2026 não diminui esse legado. Pelo contrário, ela reforça o quanto a atual delegação brasileira na WSOP cresceu assistindo a jogadores como ele competir no mais alto nível.
Se Mojave retornará a Las Vegas em 2027 ainda é uma incógnita. Por ora, suas próprias palavras sugerem que a decisão de ficar de fora neste ano foi deliberada, enraizada naquilo que realmente importa para ele fora das mesas, e não um sinal de aposentadoria ou de perda de interesse pelo jogo que ajudou a construir no Brasil.
